Entrevista para o portal Paisagismo Digital

30 Sep 2020

Entrevista originalmente publicada em julho/2020 no site www.paisagismodigital.com, portal multi-conteúdo da Empresa AueSoftware.

 

 

1 - Gostaríamos que você nos contasse um pouco sobre a sua vida pessoal e profissional. Como foi a escolha da profissão? Qual a sua formação?

Olá, muito prazer, me chamo Bianca e sou sócia-fundadora da EKOA Paisagismo ao lado da agrônoma Heloisa Antunes. Fiz graduação em Biologia, mestrado em Botânica na USP e curso técnico em paisagismo no SENAC. A partir de então não parei mais de estudar, complementando minha formação em cursos livres e de especialização na área do paisagismo e meio ambiente. Hoje sou pós-graduanda em Paisagismo Ecológico pela PUC-RIO. Atuo como professora há pelo menos 7 anos, tendo formado professores através dos convênios REDEFOR-USP e UNIVESP-USP, e pós-graduados em Arquitetura da Paisagem no SENAC-SP, onde atualmente ministro as disciplinas “Vegetação: componente ambiental aplicado ao projeto paisagístico” e “Biomas brasileiros e Ecologia urbana”. Além de projetar e implantar jardins, presto consultorias e ministro cursos livres para equipes de jardinagem e escritórios de paisagismo particulares, onde desmistifico o maravilhoso mundo da botânica e toda a importância que ele tem na construção de paisagens ecológicas.

 

2 - Na questão de escolha das espécies botânicas, há prioridade para espécies nativas?

Sempre! Aliás esse é um dos tópicos que chamo atenção nas minhas aulas, jardins com plantas nativas são mais resilientes: exigem menor manutenção, irrigação e insumos (como adubos ou produtos para tratamento fitossanitário), além de florescerem e frutificarem com mais eficiência no nosso clima, prestando também um serviço à fauna urbana (local de nidificação e recursos alimentares para polinizadores e dispersores). Plantas nativas são fundamentais para termos um jardim saudável e, consequentemente, bonito ao longo do ano.

 

3 - O que você julga essencial na elaboração de um projeto?

Em tempos de mudanças climáticas e todo o impacto decorrente nos centros urbanos (ilhas de calor, alagamentos, poluição, etc.), é preciso abandonar a ideia de fazer jardins apenas bonitos, eles precisam ser também funcionais e ecológicos. Para tal, durante a elaboração do projeto, devemos levar em consideração o seu entorno, utilizando espécies nativas do bioma em questão, priorizando a conservação das áreas verdes/árvores adultas existentes no lote, maximizando as áreas permeáveis para evitar enchentes e bioclimatizando as construções. É necessário também prever certa diversidade de espécies e de estratos no jardim, para que busquemos sempre atingir um equilíbrio ambiental (decorrente de todas as interações que vão se formar entre fauna e flora, dentro e fora do jardim). A diversidade é importante, por exemplo, para que não tenhamos grandes perdas caso alguma espécie seja atacada por alguma doença e também para atrair diferentes tipos de animais, que podem funcionar como predadores naturais de diferentes pragas. Acredito que a diversidade promove equilíbrio, em qualquer situação!

 

 

4 - Como surge a inspiração para um projeto de paisagismo? O que procura priorizar?

Em um primeiro momento, claro, há que se priorizar o estilo da construção e os desejos do cliente (áreas de estar, fluxos, mobiliários, vistas a esconder/salientar, pergolados e outros equipamentos). Acredito que seja importante sempre personalizar os projetos, sentir o Genius Loci ou identidade do lugar, e não adotar uma formula pronta e sair colando em diferentes locais/situações. Para isso é preciso analisar o terreno em profundidade, não apenas o clima da região (ventos, orientação solar, temperatura e precipitação), mas os microclimas em cada área do jardim e também o tipo de solo, analisando a possibilidade de tirar proveito dessas informações no partido do projeto ou a necessidade de fazer correções para alcançar melhores resultados. A análise das hidrozonas, ainda, permite projetar sistemas de irrigação mais eficientes, minimizando o desperdício de água e os custos de manutenção, pontos de fundamental importância na sustentabilidade do projeto.

 

5 - Você acredita que o paisagismo tem a possibilidade de melhorar a vida das pessoas?

Com certeza! Existem muitos estudos sobre os benefícios do verde sobre a saúde física e psicológica das pessoas, além do impacto positivo das áreas verdes sobre o ecossistema urbano como um todo. Como benefícios físicos posso citar a melhoria na qualidade do ar, através da filtragem de poluentes e umidificação, além da redução da poluição sonora e visual e ampliação de espaços para realização de atividades físicas, todos tendo grande impacto sobre a saúde das pessoas principalmente nos grandes centros urbanos, onde a incidência de doenças respiratórias, cardíacas e alérgicas é elevada.

Além disso, estar próximo ao verde nos traz diversos benefícios psicológicos diversos, e esta é uma área da ciência que está sendo amplamente debatida hoje em dia: o conceito de biofilia, de reconexão com a natureza, tão fundamental para todos nós. Os japoneses há muito falam sobre o “Banho de Floresta” e seus benefícios sobre os batimentos cardíacos, níveis de hormônios do estresse e qualidade de vida. Que possamos projetar cidades cada vez mais verdes, capazes de enfrentar as mudanças climáticas e acolher com saúde o sempre crescente número de moradores.

 

6 - Fale-nos sobre um projeto que você tenha curtido fazer!

Ao longo desses 10 anos trabalhando com paisagismo, tive a oportunidade de participar de diversos projetos, concursos e instalações interessantes. Um trabalho que me proporcionou grande aprendizado foi o curso “As plantas de Burle Marx” que ministramos na Fundação Ema Klabin no ano passado. Nele pudemos nos aprofundar no estudo das espécies utilizadas por Burle Marx, analisando a listagem botânica completa (quase 1000 espécies de mais de 25 projetos espalhados pelo Brasil todo), elencando as composições que o mestre mais utilizava, espécies nativas que ele descobriu e as “queridinhas”, espécies que Burle Marx sempre empregava nos jardins. Um estudo inédito, que pretendemos aprofundar e publicar em breve.

Outro projeto que gostei muito foi o labirinto de girassóis que fizemos por ocasião da campanha Setembro Amarelo, de conscientização sobre a depressão e suicídio. A instalação, de 120 m², foi projetada e instalada por nós no Largo da Batata, contando com estrutura metálica formando labirinto de 75 metros lineares e aproximados 2000 vasos de girassóis além de folhagens decorativas. Considero esse um projeto interessante do ponto de vista paisagístico, por ser uma instalação em área pública, e principalmente pelo caráter educacional que a experiência proporcionou aos visitantes, contendo informações sobre a depressão, desde a dificuldade de diagnóstico da doença até desafios que surgem no dia-a-dia, como o preconceito e sensação de inadequação à sociedade. Um linda campanha encomendada pela Pfizer, pela Associação de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) e pelo Centro de Valorização da Vida (CVV).

 

 

7 - Qual a sua opinião a respeito do http://www.paisagismodigital.com.br? Em que ele pode ajudar no trabalho do paisagista?

Considero o portal do Paisagismo Digital uma ótima fonte de informações para o paisagistas, produtores, clientes e público em geral. Em tempos de internet e o grande volume de sites disponíveis online, o portal se destaca como uma fonte de informações confiáveis, onde podemos pesquisar sobre uma determinada espécie ou produto, ler matérias interessantes ou acompanhar a agenda de eventos da área. Sem dúvida, uma grande iniciativa de muita utilidade para nós paisagistas.

 

8 – Neste momento tão difícil que estamos passando, você tem conseguido fazer seus belos trabalhos, tão necessários para o bem-estar de todos nós?

Com certeza. Despois de um primeiro momento de susto e falta de informações com relação à pandemia, sinto que agora o mercado começa a aquecer novamente, principalmente devido ao fato de as pessoas estarem mais tempo nas suas casas, valorizando a proximidade com o verde e a qualidade de vida que isso traz. Mesmo o simples ato de cuidar de uma pequena horta ou ver o desabrochar de uma flor em vaso já pode distrair nossa mente e minimizar o impacto negativo de todas as péssimas notícias que estão sendo veiculadas, não só com relação às vítimas da pandemia, mas também com relação aos grandes estragos que estão sendo causados no nosso meio ambiente. São tempos difíceis para a nossa saúde física e mental, mas acredito que o paisagista dispõe de ferramentas para minimizar esse impacto e trazer um pouco mais de verde e (por que não?) esperança para junto das pessoas. Que saibamos sempre apreciar e aprender com a natureza!

 

 

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